Abençoados (sem pagar nada)

Em quase três semanas em Nairóbi, já percebi que a maioria das pessoas daqui são muito religiosas. Nas ruas, “God bless you” é quase um “bom dia”. Sou católica mas não frequento tanto a igreja. No entanto, fico extremamente feliz ao ver como as pessoas crêem aqui. Não importa se em Deus, Allah, Tupã, apenas acho bom acreditarem. Em um lugar com tanta miséria e tristeza, acho que acreditar em um futuro melhor, abençoado por quem quer que seja, traz energias melhores para eles. Não queria discutir religião, mas me senti obrigada hoje, após minha primeira visita a uma igreja aqui.

Gosto muito de visitar templos. Vi missas na França, Inglaterra, Irlanda e Bélgica. Se pudesse escolher uma missa para assistir sempre, seria uma daquelas bem comportadas com orquestra tocando, coisa que hoje em Manaus só vejo praticamente em missa de sétimo dia. Tenho um pouco de agonia com missas carismáticas (muito balança papel, bate palma e põe as mãos pro alto), mas né, gosto é gosto. Então hoje, domingo de manhã, decidi conhecer uma igreja queniana, totalmente aberta a novas experiências.

Igreja

Chegamos à Mavuno Church e o local me surpreendeu. Um imenso campo com várias tendas. Muito bacana para contar com a participação de famílias inteiras, por exemplo, já que eles têm espaços para crianças, adolescentes, pais de família e tudo que você imaginar. A cerimônia estava marcada para 12h, mas como fomos andando acabamos nos atrasamos uns 20 minutos. A primeira parte, de aproximadamente uma hora, era só de cantoria. Me lembrou muito aqueles filmes americanos com um coral de mulheres negras que cantam super bem. Apesar de não gostar desse negócio de dançar em igreja, foi super bacana. As mulheres cantam muito!

Em seguida, dois pastores subiram no palco. Um deles era um famoso que tem um programa de TV, mas não lembro o nome dele. Sem sermões, achei bacana a interação com os fieis. Eles discutiam temas como relacionamento com a família, entre outras coisas, e pediam para debatermos com quem estava ao nosso lado. Até aí eu estava gostando bastante.

Eu já disse que somos tipo celebridade aqui, né? Ser branco te dá vantagens de entrar em qualquer lugar, entre outras coisas, mas é um saco como sempre somos encarados. Não foi tão diferente na igreja, principalmente quando ele pediu para todo mundo que estava visitando a igreja pela primeira vez levantar a mão. Nós ganhamos então convites VIP para um lounge especial onde dão suco de graça após a missa. Sei lá, achei estranho, mas ok.

Desculpa, sou VIP

Próximo tópico do debate. Pararam de falar sobre os temas de família, religião, etc, e focaram em apresentar o novo projeto da igreja. O campo que me surpreendeu não era suficiente para eles. A nova área terá piscinas, parque de diversão, quadras de esporte, tendas ainda maiores (pelas fotos que mostraram, parece um daqueles festivais de música eletrônica europeus) e várias outras coisas. A maneira como apresentaram era demais. O pastor, com excelente oratória, pedia para os fieis fazerem “wow” toda vez que ele falava de algo super inovador que a igreja vai ter. A maneira com que ele tentava mostrar pras pessoas como aquilo era bom começou a me incomodar.

Para não dizer que foi implicância minha, anotei trechos do sermão do pastor. As semelhanças com aquele vídeo do Feliciano pegando o dízimo do cadeirante não devem ser coincidência. Primeiro, um pastor apresentou o projeto e começou a pedir ajuda para a construção. “É uma oportunidade única para investir em algo bom. Se você quer ver sua vida se transformar, ajude. Nossos pastores vão abençoar vocês para que se engajem nesse processo”, disse.

Para fortalecer o discurso, entrou outro pastor que continuou pedindo dinheiro. “É absolutamente incrível o que Deus quer fazer por nós com as doações de vocês. Em três meses, teremos uma nova casa. Vocês são abençoados por abençoarem. Isso é pelo futuro da África. Se você não tem muito para doar, peça para o seu vizinho dar mais e dê tudo o que você tem que assim Deus te abençoará”, completou.

Depois dessa parte, esperei mais um pouquinho e deixei a igreja. Na saída comentei que não estava me sentindo muito bem com os pedidos e fiquei sabendo que eles já arrecadaram mais de um milhão de dólares. UM MILHÃO. DÓLARES. É muito dinheiro, cara. Sem querer ser radical, mas estamos na África. Eu vi gente morrer de fome na rua (escrevi a respeito aqui no blog, para quem não leu). Tem gente pedindo uma moedinha em cada esquina. Mais de 2,4 milhões de pessoas passam fome no Quênia. Não, eu não posso com um discurso de que as pessoas vão ser abençoadas se derem o pouco de dinheiro que tem para a construção de uma igreja gigante que com certeza não vai mudar a fé gigante que esse povo tem.

O Quênia é um país abençoado por natureza. O sorriso no rosto dessas pessoas, mesmo sofrendo com tanta miséria, é a prova maior de que elas são abençoadas. O “God bless you” sincero de todas as manhãs é o ingresso VIP para o céu que todos eles ganharão, provavelmente com direito a suquinho também e muitas outras coisas. Que Deus te abençoe, Quênia, e te livre de todo o mal. Rezo por ti todas as noites e sei que vais conseguir uma vida boa sem precisar pagar nenhum shilling por isso.

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3 comentários sobre “Abençoados (sem pagar nada)

  1. Já falei q tenho orgulho de vc? Então q fique registrado! Sempre que puder estarei aqui curtindo seus textos e torcendo pelo seu sucesso, que alem de tudo ainda ajuda outras almas pelo mundo e com certeza te faz muito bem. A unica coisa q sabia de Nairobi foi q ai q morreu o fundador do Escotismo, que estudei por anos na adolescência. Sobre as igrejas, prefiro não comentar, apenas lamento tamanho absurdo.
    Fique com Deus e sucesso sempre!

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