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Com quem será?

CasamentoPosso dizer que estou nos meus melhores dias em Nairóbi. Brasileira, 21 anos, sucesso total. Ontem, por exemplo, foram dois pedidos de casamento. EPA PERA! What? Pois é, tô pensando em ficar.

Os quenianos têm um jeitinho especial de abordar as garotas por aí: chegam logo te agarrando, passando a mão e não querem saber de nada. Eu, estressada como sou com essas coisas, amei e já dei muito grito por aqui. Outro dia fomos a um bar da cidade para a despedida de duas pessoas que estavam trabalhando comigo e um cara grudou em mim elogiando o batom, o formato da boca e o resto eu nem lembro pois estava tentando ignorar. Tentei desguiar educadamente, até que ele agarrou minha cintura e soltei o belo grito de “não toca em mim”. Não é frescura, mas sai, nem dei intimidade. Nesse momento começou a farsa super divertida que agora sempre me acompanha.

Quem me conhece sabe que sempre usei uma aliança da mamãe no indicador. Já usei o truque em Manaus e agora ele só tá me ajudando no Quênia: quando vem um cara chato, a aliança muda de dedo e viro uma senhora casada. Já usei com uns cinco chatos em duas noites. Não que todos respeitem muito, mas pelo menos justifica quando sou grossa. Ah, teve um que disse “mas você é brasileira” como se a minha nacionalidade fosse mudar a questão da fidelidade com o marido. Precisamos melhorar a imagem desse país, viu?! Enfim, em meio à tanta delicadeza no approach, ontem amanheci iluminada e, pelo que parece, com o óleo da bota (pra quem não é amazonense, segue a explicação no link) que não lembro de ter usado e vieram dois pedidos de casamento!

Cheguei na escola atrasada, graças ao belo trânsito de Nairóbi, e apliquei prova para os alunos. Depois disso, fui para a sala dos professores corrigir as avaliações quando chega meu primeiro Romeu. Queniano, professor da escola que vive gritando com os alunos (o que me irrita profundamente), ele me perguntou quando vou voltar para o Brasil. Ok, pergunta normal, respondi. Ele me questionou então sobre a possibilidade d’eu comprar uma passagem pra ele, papai nos dar um terreno e fazermos vários filhos em uma vida feliz no nosso puxadinho brasileiro. Agradeci a proposta e disse que não ia dar. Segundo ele, nossos filhos seriam lindos: nem negros nem brancos, já que a mistura dos dois ia formar um moreno claro, com o meu cabelo lisinho (hihi) e bem magros (ow mano, tinha que ver como eu era bola antes de vir pra cá!). Apesar do não, ele disse que o convite continua de pé. Vou pensar mais a respeito.

Saí da escola com a maior fome do mundo e decidi parar pra comer algo antes de vir pra casa. Sentei sozinha na mesa do restaurante e chega um senhor de no mínimo 60 anos, com os cabelos em um loiro mais branco que o da Xuxa, pra conversar comigo. Como a maioria das pessoas aqui são negras, é muito comum todo mzungu falar com o outro por aí e, poxa, saudade de conversar com velhinhos bacanas. Papo vai, papo vem, ele me contou que vive há 24 anos em Nairóbi e volta mês que vem pra Grécia, onde nasceu. O senhor, que não entendi o nome por nada e fiquei com vergonha de pedir pra repetir mais uma vez, falou de como sente saudade da Grécia e das DUZENTAS ilhas que tem lá. A vida é assim: uma hora um te pede passagem e terreno, outra chega um com duzentas ilhas.

Várias tentativas de pegar meu telefone depois, repetindo que eu poderia viver em uma ilha grega, o bichinho desistiu da ideia de me isolar do mundo e disse que eu poderia ser filha dele. Pensei mais em neta, mas ok. O trabalho tem sido tanto aqui que meu único relacionamento sério deve ser com ele (fique feliz, mãe). Por enquanto, aceito mais ideias de como me livrar dos caras chatos porque não sei até quando vão cair no papo do casamento.

PS: Não, eu não caí no papo de que o cara é dono de 200 ilhas.
PPS: Adoraria postar mais e muita gente tem reclamado da frequência, mas estamos enfrentando muitos apagões por esses dias e quando tenho internet ainda preciso dividir o tempo entre amigos, família, estudos e etc. 😦

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Vendo doer a fome

Malária, HIV, tuberculose, hepatite, febre amarela. A população queniana sofre com inúmeras doenças que matam pessoas todos os dias aqui. Quando a gente vem pra África, a primeira coisa que todo mundo diz é “já tomou vacina pra não pegar as doenças deles?”. A realidade aqui é totalmente diferente da nossa. Eu vim com muito medo de sofrer ao conhecer pessoas com HIV, principalmente crianças, mas cheguei aqui e algo muito maior, e que parece mais simples, me assustou mais: a fome.

Nos últimos anos, o combate à AIDS rendeu bons resultados em alguns países africanos. No Quênia, entre 2009 e 2011, a ONU registrou queda de 43% no número de novas infecções de HIV entre crianças quenianas. A redução só não foi maior que na Etiópia e Gana. Os dados foram comemorados por aqui e são ótimos. No entanto, infelizmente, uma a cada cinco crianças nascidas aqui ainda pegam HIV da mãe no momento do parto. Ao todo, 1,4 milhão de pessoas são portadoras do vírus da AIDS aqui, segundo dados do Fundo Global divulgados em 2011, e 80 mil pessoas morrem a cada ano por causa da doença no Quênia.

Nairóbi, a capital do Quênia, é uma terra onde você pode perceber facilmente vários problemas desse país. Existe gente muito rica aqui, mas esses são poucos e a maioria vem de outros países. Enquanto isso, muita gente trabalha muito pra ganhar pouco e passa fome por aí. O acesso a educação de qualidade é extremamente difícil, o que me faz acreditar que esses problemas daqui provavelmente ainda vão durar mais tempo.

No meu segundo dia aqui, estava andando no Centro da cidade com um sanduíche em uma mão e uma coca-cola na outra quando um senhor agarrou meu braço com força e me disse “me dá isso”. Juro, ele apertou tão forte que fiquei sem reação e apenas entreguei o que estava comendo. Algo parecido aconteceu com o David, intercambista que mora comigo, no meu primeiro dia aqui: uma mulher nos perseguiu na rua pedindo alguma coisa até a hora que ele deu o que restava de um sanduíche dele.

Ainda de acordo com dados da ONU, 2,4 milhões de pessoas passam fome no Quênia. Ok, todo mundo conhece a fome na África e muita gente ajuda. Ouvi isso de mil pessoas quando decidi ser voluntária aqui. No entanto, toda a ajuda humanitária destinada ao Quênia não é suficiente para resolver os problemas dessa população assolada pela miséria. Quando leio a respeito fico aqui me perguntando o que eu poderia fazer para ajudar.

Decidi escrever sobre a fome depois de ver na minha frente a dor dessas pessoas. Graças a Deus, atualmente, na escola onde trabalho, todas as crianças têm alimentação regular. A comida é também oferecida para os professores e funcionários, mas essa semana, saindo do trabalho, resolvi passar no supermercado para comprar umas coisinhas para casa e me deparei com a realidade queniana. Ela estava ali, no centro de uma capital com mais de 3 milhões de habitantes, na minha frente.

Caminhava com a minha sacola de comidas quando vi um rapaz fraco cair do outro lado da rua. Ele apenas desmaiou. De repente, todas as pessoas ao redor pararam para ver e constataram que ele estava morto. Morreu de fome, de acordo com pessoas que estavam lá. Sou aprendiz de jornalista. Apuro, pergunto. Sou curiosa. Gosto de saber de pessoas, procuro histórias. Me contaram que aquele rapaz estava ali deitado há um tempo, provavelmente morrendo de fome. O que eu vi – a hora da queda – deve ter sido um último suspiro, uma última tentativa de sobreviver. Me peguei refletindo sobre esse momento várias vezes nos últimos dois dias. Quis ter passado por lá antes e notado que ele estava daquele jeito para ter a oportunidade de dar o donut que tinha na bolsa. Quis mudar a realidade de todos aqui. Pensei demais.

Eu vim para o Quênia dar aulas pois acredito no poder da educação. É extremamente difícil ensinar nas condições que temos aqui, mas lutamos. Eu e um grupo de voluntários de diversos países, diversas culturas, mas todos juntos com um objetivo semelhante. Eu não acho que eu vou conseguir, em pouco mais de um mês aqui, acabar com a fome dessas pessoas. Não acho que eu vou ter donuts suficientes na bolsa. Eu não vou conseguir agora, mas meu trabalho e de quem virá depois de mim, continuar meu legado, conseguirá.

Eu tenho um sonho. Eu sonho com um país menos desigual para essas pessoas tão legais daqui. Eu sonho com quenianos capacitados que vão conseguir conquistar o mercado local e serem ricos também, como os europeus que vem pra cá. Eu sonho em ver as crianças da favela de Mathare, onde trabalho, sendo grandes cantoras, médicas, jornalistas e presidentes, como elas me falaram que pretendem ser. Eu sonho, e é por este meu sonho que eu luto.

Eu vim para o Quênia por causa de duas pessoas. Eles são os meus heróis dessa terra. São brasileiros, como eu, que conseguem fazer seus sonhos de ver um Quênia melhor se realizarem. Julia Nogara, fundadora do projeto 50 Sorrisos, e Artur Ribas, fundador do Movimento Contra a Fome na África, obrigada por terem me mostrado esse lugar. A Julia criou o projeto que sustenta a escola em que trabalho até hoje, dando alimentação e material escolar pras crianças, entre outras coisas, através de uma rede de apadrinhamento dos alunos por brasileiros. Eu e minha mãe somos madrinhas e, por ver os resultados desse trabalho, decidi vir pra cá. O Artur foi intercambista da AIESEC Manaus durante a minha gestão como diretora de Intercâmbios para Estudantes e veio para Mombasa, aqui no interior, onde criou um projeto de desenvolvimento sustentável para uma comunidade de lá. Assim eles conseguem produzir seus próprios alimentos e gerar renda. Dois projetos que confio plenamente e tenho orgulho de ter acompanhado desde o início.

Como disse Walt Disney, “se você pode sonhar, você pode fazer”. Sei que não vou mudar a realidade desse país, mas acredito que a educação repassada para as 105 crianças da escola possa formar uma corrente. Se cada um deles for ajudando outras pessoas, teremos milhares. Só é preciso acreditar. Que assim seja. Que a fome não vença e não tire mais o sorriso tão bonito de nenhuma dessas pessoas.

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Pegando carona com avestruzes

Não seja o primeiro a andar de um grupo ou você vai fazer mil caras de desespero como eu

Não seja o primeiro a andar de um grupo ou você vai fazer mil caras de desespero como eu

Cheguei no Quênia na segunda, dia 1º de abril, e ainda era feriado de Páscoa. Hoje, dia 9, acordei e, ó que bonito, sem trabalho de novo, mais um feriado! Eu nem sei o que era, na verdade, mas deu pra aproveitar e conhecer mais coisas por aqui. Os outros intercambistas que estavam viajando voltaram e agora somos quatro alemães, duas polonesas, uma colombiana, uma canadense e eu no apartamento. Dois dos meninos planejaram ir pra um safari no Nairobi National Park e eu ia com eles, mas tivemos um apagão e ficamos sem água por umas dez horas aqui, daí decidi ficar pra não gastar tanto e ir sem câmera. Depois que eles foram embora, a luz voltou e consegui carregar a câmera, daí surgiu o convite para ir para o Maasai Ostrich Resort Farm com a canadense Julie, colombiana Martha e Benny, um dos caras da Alemanha.

Pegamos um ônibus aqui e fomos para o centro. Lá pegamos outro ônibus para Kitengela, onde precisávamos pegar um taxi para o resort. Como em outros lugares turísticos do mundo, estrangeiro sempre paga mais caro. Aqui nós chamamos de “mzungo price”, porque todo mundo nos chama de “mzungo”, que significa “gente branca”. O preço normal era 500 shillings, mas nos cobraram 1.500, então decidimos pegar motos. E o medo, como fica? Pegar a estrada com dois passageiros em cada moto e sem capacete. Sorte que, graças a Deus, nossos motoristas eram ótimos e a viagem foi linda. É uma aventura, mas se vocês vierem para a África, por favor, peguem a estrada em motos pelo menos uma vez! Esse lugar tem as vistas mais lindas do mundo e nada melhor do que vê-las com o ventinho batendo no rosto.

Dividindo a moto com a Julie: melhor viagem até agora, apesar da dor na bunda pela falta de asfaltamento

Dividindo a moto com a Julie: melhor viagem até agora, apesar da dor na bunda pela falta de asfaltamento

Para chegar ao resort precisamos passar por uma estradinha de terra, como na maioria dos lugares por aqui. Vimos milhares de vacas e ovelhas até que surgiram zebras. Foram as primeiras que vi aqui e já foi suficiente para eu me apaixonar. Lindas! Então o mototaxista me contou que aquela área é o final do Nairobi National Park, então é tipo um safari aberto, e que poderiam surgir leões. Pense numa menina que foi morrendo de medo no resto do caminho, haha.

O passeio pela fazenda é legal, mas acho que não vale tanto

O passeio pela fazenda é legal, mas acho que não vale tanto

Já no resort, estranhei uma coisa: você paga mais caro pelos passeios se for durante a semana. Pelo menos em Manaus as coisas são mais caras no fim de semana, que é quando o pessoal geralmente vai. Para nossa sorte, eles consideram feriado fim de semana, então pagamos 300 shillings para fazer o tour na fazenda e 300 para a parte mais legal de todas: andar em um avestruz!

Ok, vem a parte estranha. Chegamos na fazenda e fomos conhecer o local. Eles nos mostram desde os ovos da avestruz (mano, é gigante! parece de dinossauro, super pesado!), quando elas são bebês, toda a fase de crescimento até ficarem adultas. Finalizamos o passeio em uma voltinha na avestruz. Ok, até aí tudo bem, mas depois você termina em um restaurante onde eles servem (tcharam!) carne de avestruz. Meio triste ver a bichinha nascendo, crescendo e depois comer, mas não nego que é gostoso.

Ainda desconfio que vão nascer dinossauros desses ovos de tão pesados que são

Ainda desconfio que vão nascer dinossauros desses ovos de tão pesados que são

Quando chegamos na parte do passeio, desistimos de montar nelas pensando que o animal sofria. Como elas são rápidas (correm até 75km/h), duas pessoas vão ao lado segurando pra ela não disparar e deixar a pessoa cair, mas observamos melhor e não parecia desconfortável pra elas. Ok, quem vai ser o corajoso a ir primeiro? Marininha aqui! Apesar de os caras segurarem, ainda é bem rápido. Você corre com elas, dá uma voltinha e é super legal! Recomendo para todo mundo que tiver a oportunidade. Único detalhe: só pode andar quem pesa até 70kg e eles não avisam isso. O passeio pela fazenda não vale tanto a pena, então se você pesar mais que isso talvez nem seja tão legal ir lá.

Oi avestruz

Oi avestruz

Não foi um safari, mas foi realmente divertido e não tão caro. Ao todo (comida + passeio), gastamos aproximadamente mil shillings, o que dá uns 11 dólares. Pechincha para turistas, mas caro para quenianos. A única dica é que você deve pedir desconto em tudo ou cobram absurdos. Agora estou planejando mil outros passeios e em breve escrevo sobre eles aqui. 🙂

As meninas criaram coragem depois que eu fui e foi super divertido

As meninas criaram coragem e também se divertiram bastante. Aproveitei para testar a lente nova.

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‘How Are You?’

Cheguei em Nairóbi depois de mais de 30 horas de viagem. Em Manaus, a despedida foi difícil. Deixei grande parte do meu coração lá e segui para São Paulo. Na terra da garoa, abençoada como sou, consegui uma bela companhia que fez as horas voarem e, apesar de cansativa a viagem, poderia ter sido mais longa pra ter mais horas com a amiga querida que encontrei em Guarulhos. Rumo à África: nove horas cansativas até Joanesburgo, mais seis de espera, quatro de voo, e finalmente Nairóbi.

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Pelo caminho com a Lílian em SP, Joanesburgo e finalmente a caminho de Nairóbi

Confesso, as primeiras horas no Quênia não foram fáceis. No entanto, o carinho de todas as pessoas aqui é gigante e ajuda muito. Cheguei em casa de madrugada e o caminho parecia super deserto… imaginem o medo que tive de voltar só algum dia pra casa. Porém, como já disse, tive uma sorte gigante aqui de nunca estar só. Sorte esta que tive tanto aqui como aí.

As madrugadas foram de choro. Ver a mamãe no Skype ainda é sentir um aperto no peito querendo um abraço. Repeti na minha cabeça “é preciso força pra sonhar e perceber que a estrada vai além do que se vê”. Lá de longe vieram pessoas lindas como a dona Márcia de sempre, o Izamir que não sai do pé e está me dando um grande suporte, a Tany que mandou o email mais lindo do mundo, a Gabi e a Day que não param de ser lindas, e mil outras. Aos grupos no whatsapp, me desculpem por compartilhar tanto drama e obrigada por sempre responderem fofinhas.

Aqui do meu lado surgiu um anjo que me ajuda em tudo, o intercambista alemão David. Ele costumava dar aulas na minha escola e agora trabalha em outra também em Mathare. Na segunda, ele me tirou da tristeza e fomos ao Monkey’s Park (Nairobi City Park). Aí que eu comecei a descobrir a simpatia das crianças daqui: sempre, sempre que elas nos vêem na rua saem correndo pra dar um abraço e bater na nossa mão. Coisa mais fofa. Fomos também ao topo de um hotel que tem uma vista panorâmica da cidade, ao restaurante de um outro hotel que tem vista para uma área aberta com animais (pena que só vimos um bambi, mas valeu), entre outros passeios. Até ajudar a limpar meu vômito ele já ajudou, e mais de uma vez… chegou até a brincar que tô fazendo um mapa da cidade citando lugares como “onde passei mal no primeiro dia, onde passei mal no segundo”, haha.

Monkey’s Park com David; várias criancinhas estavam com o rosto pintado lá por causa da Páscoa

Nesta terça saímos de novo, desta vez acompanhados da Florence, minha buddy da AIESEC aqui. Assim como o David, a Florence é super prestativa e atenciosa comigo. Passei mal, pra variar, e fomos para a favela. É incrível como as pessoas tentam ignorar a pobreza aqui, apesar de estar por todos os lados. A maioria das ruas não são asfaltadas, saneamento básico é quase inexistente, falta iluminação pública até em avenidas importantes, e tem gente que finge não ver nada disso. No avião conheci gente daqui que não sabia nem o que era Mathare (a favela onde trabalhamos). Nas ruas, muitas pessoas dizem “nunca vá para a favela, é muito perigoso lá”.

Fomos para Mathare em um matatu (transporte público daqui que tem a viagem tão divertida, mas tão divertida, que merece um post só pra ele depois explicando direitinho como é!). Chegando lá, descemos em uma área já bem mais suja do que o resto da cidade. O David perguntou o que eu estava achando e me disse que aquilo ainda não era a favela de verdade. Entra no beco ali, sai no beco dali, estávamos no coração de Mathare. Em Manaus, muitas pessoas me disseram que se eu quisesse eu poderia viver a mesma experiência na Zona Leste da cidade. A essas pessoas eu digo: vocês não imaginam como é a realidade dessas pessoas aqui.

Acho que normalmente minha primeira reação seria ficar triste por eles, mas nenhum morador me deixou sentir isso. Todo mundo que nos vê sorri ou acena. As crianças são as mais fofas. Sempre que nos vêem falam “titchá titchá (teacher)” e perguntam “how are you?”, o que inspirou o título do post. Nunca tinham me perguntado tanto como eu me sentia! Ao ouvir aqueles “how are you?” super fofinhos, seguidos dos abraços à minha perna (geralmente são pequenininhos que não me alcançam, então abraçam as pernas), meu coração se derreteu e a tristeza foi embora.

Fui na escola rapidinho para ser apresentada a todos. Lecionarei em Ngotas Upendo. O David me levou pra conhecer a escola e em cada sala de aula que eu entrava a reação foi diferente: os menores me abraçaram eternamente e os mais velhos começaram a me aplaudir com o sorriso no rosto quando disseram que eu seria professora deles. Cada aluno fez questão de me dar às mãos e desejar boas vindas. A ansiedade pra começar a dar aulas só aumentou depois dessa visita. Amanhã (quarta-feira, 3), vamos levar as crianças a um museu. No outro dia já estarei trabalhando diretamente com eles.

Como eu disse no primeiro post, já esperava que esta fosse a experiência mais intensa dos meus 21 anos. Em dois dias já vivi um mix gigante de sentimentos, mas acho que o melhor de tudo foi descobrir o meu motivo pra estar aqui. Eu não vim pra Nairóbi só fazer meu tcc (outro dia falo sobre isso), só pra escrever nesse blog ou querer bancar a Madre Teresa. Eu escolhi Nairóbi por conhecer história de pessoas que mudaram vidas aqui e que tiveram suas vidas tocadas para sempre também. Foram dois dias intensos, mas ainda tenho muitos aí pela frente. Que venham novas emoções, novos sentimentos, e que o sorriso no rosto daquelas crianças nunca me deixe esquecer o que me move.

Mara, intercambista grega, e uma criancinha que veio falar conosco em Mathare

PS: me desculpem por não ter tantas fotos, mas é que só foram dois dias e eu queria aproveitar ao máximo pra conhecer as pessoas antes. Também não tiro muita foto pela rua porque todo mundo aqui diz que pode ser perigoso ficar expondo tanto a câmera por aí.

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Amanhã vai ser o melhor dia da sua vida

Com uns 14 anos fiz meu primeiro blog. Abandonei. A partir daí, criei mais uns três. Nunca consegui manter nenhum. Sempre amei escrever, mas acreditava que não tinha nascido pra isso. Fiz vestibular pra jornalismo e passei. A partir daí, escrever virou rotina.

Rotina. Nunca gostei muito dela. Gosto de novidades, de aventura. Gosto de desafios, gosto de conhecer novas pessoas. A melhor fase da minha vida até hoje foi quando aos 16 anos fui para a Inglaterra passar dois meses em Brighton. Viajei sozinha, vi um novo mundo, vivi uma nova vida. Fui obrigada a aprender a cuidar de mim, das minhas contas, de tudo.

Voltei para Manaus e caí de novo à rotina. Tudo parecia fácil. Amo a vida que levo, mas precisava de mais emoção. Aí então conheci um projeto que mudou meus planos, o 50 Sorrisos. Apadrinhei uma criança e no Natal de 2011 recebi uma cartinha dele agradecendo pela ajuda. Quis dar um abraço para retribuir a delicadeza. Mais de um ano depois, lá vou eu dizer o muito obrigada. Malas prontas, nova aventura. É tempo de mudar. É tempo de Quênia.

Amanhã, dia 30 de março, viajo a caminho de Nairóbi. Lecionarei inglês e português para crianças na favela de Mathare, a segunda maior da capital queniana. Estou feliz, nervosa e muito ansiosa. Amanhã vai ser o melhor dia da minha vida. Os próximos dias serão os melhores dias das nossas vidas.

Nos próximos posts vou falar sobre cada nova experiência no Quênia. Fiquem a vontade para fazer perguntas, sugestões, pedir para mostrar alguma coisa de lá. Espero que vocês gostem de acompanhar esta aventura.

Me desejem sorte nas mais de 24 horas de voo e até mais!

Karibu Kenya.

Aluno de Ngotas Upendo (Foto: João Victor Novelletto Bolan)

Aluno de Ngotas Upendo, onde lecionarei (Foto: João Victor Novelletto Bolan)