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Intercâmbio de idiomas vs. intercâmbio voluntário

intercambioAos 16 anos, me aventurei pela primeira vez no mundo. Um tempo antes, quando completei 15 anos, um familiar super querido veio me perguntar se eu tinha vontade de ir pra Disney. Na hora disse logo não. Só depois descobri que ele ia me dar a viagem de presente, e quase morri do coração por ter negado. Depois, ele me contou essa história e veio com outra proposta: um intercâmbio para estudar idiomas. Havia acabado de terminar meu curso de inglês, estava quase concluindo o ensino médio e parecia ser a hora perfeita.

Era a minha primeira viagem internacional, e primeira sozinha. O passo inicial foi procurar uma agência boa. Visitamos a World Study, CI e algumas outras, mas foi pela primeira que me apaixonei e que recomendo a todos até hoje quando me dizem que querem fazer essa modalidade de intercâmbio (update: as pessoas que ajudaram a organizar minha viagem estão trabalhando na IE agora, vão atrás deles! Andrews Aires e Kety Medeiros!). Veio a outra dúvida: Canadá ou Estados Unidos? Decidi então que iria para Vancouver, porque o dólar era mais barato… até descobrir que uma turma de uns 30 alunos da minha escola ia pra lá na mesma época. Eu sabia que falaria português se eles fossem, então faltando um mês para a viagem, mudança de planos!

Sempre fui apaixonada por Paris, mas ainda estava (e estou) longe de aprender francês. Um dia, na agência, veio a sugestão: que tal Europa? Ir para a Inglaterra e visitar a França. Eu tinha um medo maluco de Londres. No auge dos meus 16 anos, mal saindo de casa, pela primeira vez viajando só, ia me meter em uma cidade de quase 9 milhões de habitantes? Não, obrigada. Foi assim que descobri Brighton, a cidade mais sensacional que conheci.

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Passei dois meses na Inglaterra e visitei também França, Holanda, Bélgica e Irlanda. Estudei muito, convivi com os costumes deles pois fiquei em casa de família, me diverti absurdamente, fiz milhões de amigos que guardo até hoje, mas não sabia o quão maior podia ser o impacto de uma experiência internacional assim na nossa vida até me aventurar em outro tipo de intercâmbio: o voluntourism.

Voluntariado e Turismo: o voluntourism

Para quem não conhece, vamos lá: de acordo com a Organização Mundial do Turismo das Nações Unidas (OMT), o volunturismo é aquele com menos de 365 dias de duração, que envolve o deslocamento da pessoa para fora do seu ambiente habitual, e de viagens realizadas com qualquer outra finalidade que não seja a obtenção de ganhos financeiros.

Fiz meu intercâmbio voluntário em 2013, pela AIESEC, após três anos trabalhando na organização e já com a experiência de ter sido diretora local de intercâmbios para estudantes e time nacional nesta área em dois países diferentes. Convivi muito com a realidade do turismo de voluntariado, organizei dezenas de intercâmbios assim, resolvi problemas, aconselhei jovens que enfrentaram dificuldades de adaptação, mas só soube mesmo como é vivenciar o voluntourism ao chegar lá.

Minha experiência durou um mês e meio no Quênia. Após mais de 30 horas de voo, quando cheguei em Nairobi pensei “que diabos estou fazendo aqui?”. Cheguei no apartamento de madrugada e estávamos há três dias sem luz. Bateu um desespero tão grande. Os primeiros dias foram os mais desafiadores. Foi ali que comecei a sair da minha zona de conforto. Alguns dias depois e já passando super mal por causa da comida, comecei a trabalhar: se ainda existia zona de conforto, foi o primeiro passo na favela que me fez sair dela. Eu era a estranha, a “muzunga”. Dona OMT, você estava certa. Saí do meu ambiente habitual, ganhei muito mais que ganhos financeiros e vivi algo maravilhoso.

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Se hoje me perguntassem qual dos dois tipos de intercâmbio eu escolheria, acho que hesitaria em responder. Sou extremamente feliz por ter vivido os dois. Hoje o meu perfil é de voluntourism, mas o intercâmbio de idiomas foi essencial para despertar em mim a noção de que o mundo é algo tão maior que precisamos explorar.

Quanto gastei…

Emoções a parte, o voluntourism também costuma ser mais barato (e digo costuma pois agora algumas organizações estão se aproveitando do quando as pessoas querem fazer algo de bom para meter a mão). Viajei pro Quênia pela AIESEC por R$ 800 de taxa (na época), paguei minhas passagens (R$ 4 mil, ralaaaado, África é cara), e, como escolhi um país mais carente, paguei minha alimentação, moradia e transporte. Em outros destinos esses três itens costumam ser oferecidos pelas ONGs. A moeda deles não é tão valorizada, então acabei não gastando tanto. Para todo o tempo que fiquei, paguei 300 dólares de hospedagem em apartamento dividido com intercambistas, que já tinha comida também. O transporte era super barato.

Já em 2009, para a Inglaterra, o curso custou cerca de R$ 11 mil e as passagens um pouco mais de R$ 6 mil. Obrigada, Deus, que foi um presente. Ainda assim, foi caro também me manter lá, já que uma libra era R$ 4. Considerando esses fatores também, o voluntourism seria o meu escolhido para repetir a dose.

Outra vantagem de ter feito os intercâmbios foi as portas que ele me abriu. Nos empregos por que passei, foi um puta diferencial, tanto o inglês fluente quanto o fato de ter me aventurado por aí. Depois da primeira viagem, achei que querer ser viajante fosse atrapalhar minha vida – que eu não fosse definir nunca o que queria fazer e ia decidir ser mochileira profissional. Hoje, posso dizer que andar pelo mundo foi uma das melhores coisas que já fiz.

Vamos andar por aí? - Foto em Dublin, Irlanda

Vamos andar por aí? – Foto em Dublin, Irlanda

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Ser família – a história de Musyoka

musyokaHá dois anos, quando eu estava no Quênia, fiz um dos posts que mais me marcou nesse blog: “Direito de ter uma família”. Naquele dia, um aluno de 13 anos nos contou que seria obrigado a sair da escola porque estava sendo expulso da casa onde morava de favor, por ser órfão. Com 13 anos, o tutor achava que ele já era grande demais para estar ali. Hoje, dois anos depois e já fora daquela casa, esse menino vive algo que vai além do direito: a alegria de poder ser uma família.

Ao voltar de Nairóbi, infelizmente precisei me afastar mais das atividades do 50 Sorrisos. Minhas obrigações ficaram muito pesadas em Manaus, mas continuei acompanhando – mesmo que de longe – a trajetória dos meninos. Senti aperto no peito a cada atentado terrorista que o Quênia sofreu em 2014, chorei com a reprovação de alguns dos alunos nos exames para ensino médio em 2013, enfim… compartilhei emoções aqui do outro lado do oceano.

Musyoka, o protagonista da história sobre o direito de ter uma família, foi um desses meninos reprovados no teste de 2013. Como Ngotas Upendo, onde trabalhei, só tem aulas até o oitavo ano, eles precisam ser aprovados em testes para escolas pagas para o ensino secundário. Marina professora, e não Marina emotiva, falando agora: Musyoka foi um dos melhores alunos que tive na vida, e olha que antes do Quênia dei mais de um ano de aula de inglês em Manaus. Menino dedicado, esperto, com brilho nos olhos. Expulso de casa com apenas 13 anos. Como lidar com uma situação assim, né? Em meio a essa turbulência na vida, ele reprovou de ano.

Quando fiquei sabendo que ele provavelmente deixaria a escola, contei para a Julia – fundadora do 50 Sorrisos – e discutimos a necessidade de construir um orfanato para os alunos. Com poucos recursos, ela e o anjo na vida desses meninos, Maureen, construíram um quarto para Musyoka nos fundos da escola. Após estudar o dia todo, ele tinha ali seu cantinho sagrado para descansar. Um cantinho seu, de onde não seria expulso. Um cantinho construído por uma família.

Enquanto eu estava longe, senti muita falta dos meus pais, mas foram os alunos que me ensinaram que família não eram só eles. Foi a força da Julia, da Maureen, da Dimitra, do Bruno, do Pedro, do Musyoka, da Sophia, do Brian, da Rose, de vários amigos e dos 105 sorrisos que me fizeram aguentar. Foi o companheirismo, a união, foi o amor. Foi, acima de tudo, o poder SER família. Sem necessidade de possuir, de ter no sangue, mas com a opção de escolher e ser escolhido. E eu sei que foi isso que me fez seguir e isso que faz com que o Musyoka consiga ir tão longe também.

Após ter um lar construído pela Família 50 Sorrisos, Musyoka voltou a se dedicar aos estudos e conseguiu alcançar a média. Precisava de R$ 320 anuais para estudar. Me ofereci para investir na educação dele, e outra pessoa já tinha financiado, mas além dele ainda existem outros alunos esperando para ser financiados. Todos conseguiram com tanto esforço que merecem a ajuda. Se alguém tiver interesse em apoiar o projeto, aqui está o link!

Além do Musyoka, mais alunos precisam de ajuda para pagar os estudos

Além do Musyoka, mais alunos precisam de ajuda para pagar os estudos

Hoje, só o que quero e posso fazer, é agradecer. Serei eternamente grata por tantos ensinamentos que esses meninos me repassaram. É uma alegria imensa, após dois anos, receber notícias tão boas deles, e mostra como não há nada mais importante do que fé.

(PS: além de ter me marcado tão intensamente, o Musyoka foi também o principal responsável por ter despertado na Julia o interesse em fundar a ONG 50 Sorrisos. Durante uma aula durante seu intercâmbio voluntário na escola, um aluno pediu dela uma banana que ela tinha na bolsa para dar para o colega, e contou que esse menino estava há tantos dias sem comer que já não conseguia prestar atenção na aula direito. Ela deu a banana, surpresa, até porque, apesar de todos os problemas, aquele era um dos alunos mais dedicados e atentos na classe. Esse menino era o Musyoka. A 50 Sorrisos começou com apadrinhamento para prover comida para as crianças. Após garantir a alimentação por meio de doações mensais no valor de R$ 20, os alunos foram beneficiados ainda com fardamento e material escolar novo, banheiro, e agora uma nova escola com estrutura bem melhor. São verdadeiros anjos na vida desses meninos, que de tão abençoados merecem isso e muito mais.)

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Sobre realmente viver

Há um pouco mais de um ano escrevi o primeiro post desse blog. Dei o nome “Amanhã vai ser o melhor dia da sua vida” para o início de uma série de histórias. Era para ser um registro, uma maneira de compartilhar experiências. Virou um livro de aprendizado. Em um ano, sempre que me senti triste, feliz, rica, pobre, doente ou qualquer coisa, voltei aqui. Cada palavra me faz lembrar de uma lição. Cada dia foi o melhor dia da minha vida. Hoje é dia de reviver memórias.

Assim que voltei do Quênia, fascinada pelo país, bateu aquela tristeza sem tamanho normal de pós-viagem. Nada era mais difícil do que acordar, ir pro trabalho e não ouvir as criancinhas mexendo comigo no caminho, me chamando de “muzungu” (pessoa branca). Me afundei na rotina de novo com faculdade e trabalho, e logo comecei a estudar bastante o trabalho do sociólogo Pierre Bourdieu na África pro trabalho de conclusão de curso, e assim, de alguma maneira que não me recordo, cheguei a Hemingway e os textos também sobre o continente. Foi nele que encontrei meu refúgio, aceitei minhas dores e aprendi a aceitá-las como lembranças boas. Só ele soube me explicar exatamente o que eu sentia.

“Não me lembro de nenhuma manhã na África em que não acordasse feliz”, citou o escritor em Verdade ao Amanhecer. Realidade esta a minha ao acordar, pegar dois matatus e ir pra favela em Nairóbi, ou ao acordar na beira da praia do mar mais lindo que já vi na vida em Zanzibar.

“Eu voltaria para a África, mas não para viver disso. Eu poderia fazer isso com dois lápis e algumas centenas de folhas do papel mais barato. Mas eu voltaria para onde foi um prazer viver, para realmente viver, e não só deixar minha vida passar”. É, Hemingway definitivamente sabia das coisas.

Hoje, um ano depois, já vendo frutos do meu trabalho, como a construção da escola em Mathare, e novos projetos super bacanas surgindo, como o Livros por Sorrisos, sinto que o Quênia continua sendo o meu lugar. Mais importante ainda, vejo com alegria esse país mostrando seus encantos pra tantas outras pessoas sensacionais que passaram por lá depois de mim. Tenho vontade de voltar. Nos dias mais difíceis, tudo o que mais quero é um abraço coletivo e ouvir as gargalhadas das crianças. E apesar de já ter sofrido muito por saudade, hoje sei: o amor é maior. Não importa onde estou, parte de mim sempre estará lá. Hoje completa um ano que cheguei ao Quênia, e sei que essa é só uma das nossas primeiras conexões.

“Sou apaixonado pela África, e sei que ela é um segundo lar para mim. E quando um homem consegue ter um sentimento desse por outro lugar que não seja aquele onde nasceu, é porque aquele é o lugar onde ele deve estar”.

 

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Fotografei você na minha rolleiflex

Além de dar aulas, fiz no Quênia também uma parte de um projeto meu de fotografia. No entanto, além das fotos para o estudo, resolvi brincar também com lomografia na África. Existe lugar mais lindo e cheio de cores pra explorar luzes na tentativa de capturar imagens lindas? 🙂

Pra minha tristeza, queimei uns filmes em lugares lindos. Prefiro acreditar que a revelação lá em Nairóbi não era boa, mas né, deve ter sido culpa minha mesmo. Esse fim de semana mandei revelar uns outros filmes que eu tinha aqui em casa, descobri algumas fotos de lá ainda e fiquei só saudade.

Ignorem qualquer falta de técnica, foi por diversão. Morram de amores por esse lugar como euzinha voltei a morrer ao ver essas fotos. Todas foram tiradas em Masaai Mara, no Quênia, e Zanzibar, na Tanzânia. Ignorem também a falta de post sobre os dois passeios ainda, jurinho que ainda escrevo.

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Onde a vida é de sonhar

DSC_0612Nasci sonhadora. Acredito que consegui alcançar voos mais altos por nunca ter tido medo de voar. Caí, mas não me impediu de continuar tentando voar.

Em Nairóbi vivi a minha fase mais sonhadora da minha vida. Sair de casa, mesmo que por um período tão rápido, para viver uma situação tão intensa é uma coisa que só pode ser sustentada com muito pensamento positivo. Ver tanto sofrimento e ainda assim conseguir acordar, pegar dois transportes públicos, andar na favela pisando na lama misturada com esgoto no meio de um temporal acreditando que em um mês e meio eu conseguiria mudar um pouco aquela realidade… Me desculpa, mas se isso não é meio utópico, não sei o que utopia é.

Por sorte, em 21 anos de vida, nunca sonhei só. Eu tinha no Brasil o apoio de grandes amigos, da Julia e da Giovana do 50 Sorrisos, da família, mas em Nairóbi… de lá que vinha a minha maior força. Era no sorriso do Musyoka, da Monica, da Damaris, no olhar da Diana Lili, nas lágrimas da teacher Lilian. Em cada um abraço que eu recebia diariamente que eu me inspirava. E foi nas ações também de voluntários como eu que consegui ver que Nairóbi é aquela terra onde a vida é de sonhar, mas que éramos capazes de acordar e viver o sonho também.

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Quando estava indo pra Nairóbi a Julia me contou dos planos de construir uma escola nova para as crianças. Ao chegar lá e dar as primeiras aulas vi que aquilo era uma necessidade. Saía de lá todo dia com minha rinite atacada de tanta poeira e a garganta doendo de tanto gritar para ser ouvida. A escola é um pequeno galpão escuro, sujo e quente. As salas de aula são divididas por lonas, então não há isolamento algum de som. Algumas crianças estudam lá fora, em uma área onde o sol bate, então colocam também uma lona para protegê-las do sol, mas se chove a aula delas é cancelada. Por sorte, os alunos são extremamente esforçados e driblam todos esses desafios, mas é muito triste pensar que eles têm que conviver com aquilo. São crianças brilhantes e merecem uma estrutura melhor.

As salas de aula são assim: luz só pelos buraquinhos na parede

As salas de aula são assim: luz só pelos buraquinhos na parede

Precisávamos de uma escola nova não só por causa das salas de aula também. A comida é feita nos fundos da escola, ao lado da “classe” dos bebês, sem condições de higiene. Os alunos são guerreiros. O que comem na escola é, para quase todos, a única refeição, então aquilo não parece ser um problema para eles, mas muitos sofrem de várias doenças e é necessário ter esse cuidado maior com a limpeza. Comecei então, com a Maureen e Mara, uma busca por terrenos na favela para construir a nova sede. Andávamos debaixo daquele sol quente todo dia, negociamos com várias pessoas, recebemos não um dia antes da compra com tudo planejado já, descobrimos os desafios de se construir em uma favela (tem mil regras diferentes), mas enfim, voltei com a feliz notícia de que tínhamos um terreno.

Visitando um dos possíveis novos terrenos com o diretor: mil dias de negociação e lá vem um não

Visitando um dos possíveis novos terrenos com o diretor: mil dias de negociação e lá vem um não

Era o nosso sonho. Meu, da Julia, da Giovana, da Mara, da Maureen, de todas as crianças. Um sonho que eu não vou viver, por não estar mais lá, então pedimos, antes mesmo de contar para eles que estávamos planejando, que cada um desenhasse a sua escola das sonhos. Foi um dos dias mais divertidos na escola, e inclusive alguns projetos ficaram tão bons que acredito que possamos ter uns futuros arquitetos ali no meio. E esse sonho finalmente se torna realidade.

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Começa agora em julho a obra. Serão dois prédios: um com oito salas de aula, sala para os professores e área de lazer, e outro com uma sala de aula para a baby class, biblioteca, cozinha, refeitório e banheiros. O esperado é que tudo fique pronto até o final do ano. Coisa mais linda de se ver! Não canso de sorrir pensando naqueles rostinhos felizes ao ganharem uma nova escola. Caso alguém queira ajudar, ainda estão sendo arrecadadas doações para a construção. Por favor, ajudem! Toda contribuição é válida. É só acessar a página do 50 Sorrisos que tem direitinho explicando como ajudar.

Este é o projeto, feito pela Mara, arquiteta grega que estava lá na mesma época que eu:

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Este é o nosso sonho saindo do papel. Esta é mais uma prova de que é possível realizar sonhos, de que um mês e meio não é pouco, e de que é sim possível acreditar em um futuro melhor para os pequenos de Mathare e de tantas outras regiões carentes desse mundo.

Mara, a grega que fez o projeto, com as crianças

Mara, a grega que fez o projeto, com as crianças

Para acompanhar mais sobre a construção, recomendo que acompanhem o site do 50 Sorrisos e do blog do brasileiro Vitor Belota, que está em Nairobi agora trabalhando na escola que eu dava aula. Ele inclusive está com uns outros projetos muito bacanas por lá e super recomendo a leitura do blog.

Queria muito agradecer nesse post também a um amigo que reconheci um pouco antes de ir para o Quênia e que me ajudou muito enquanto eu estava por lá, dando dicas ligadas ao projeto da nova escola por ser um excelente arquiteto, mas também me fazendo enfrentar meus medos e me dando forças para continuar meu trabalho. Pedroca, você foi essencial. Jamais vou esquecer do seu apoio.

Um abraço bem apertado e cheio de amor a todos que lêem o blog. Vocês também foram extremamente importantes durante todo esse processo e foi um prazer compartilhar minhas histórias com vocês (e não, isso não é um adeus, prometo ainda voltar a escrever aqui!).

Como diria Zé Manoel, cantor pernambucano que escutei aos montes quando estava em Nairóbi, “o meu horizonte é o tamanho do mar. Descobri com a razão que é preciso sonhar, mas não vale uma vida sem realizar. E não basta sofrer, também tem que aprender. E não basta chorar sem se fortalecer”. 🙂

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Brasil, mostra a tua cara

Voltei para o Brasil. A vida aqui tem sido tão agitada que o tempo para alimentar o blog se tornou extremamente escasso. Além disso, confesso, o choque cultural reverso foi forte e me tirou uma grande inspiração pra escrever pro blog. Tenho milhões de rascunhos na página de administradora do ‘Ando Pelo Mundo’, mas nada expressa 100% como eu me senti com esse retorno. Voltei para o Brasil, mas não me senti 100% brasileira até a quinta-feira, 13 de junho.

Como todos os brasileiros sabem, na última semana começou uma série de protestos em São Paulo contra o aumento da tarifa de ônibus. O valor aumentou R$ 0,20. Esse valor, pra mim, sempre foi coisa que eu poderia perder no fundo da bolsa e por lá ficaria. Sinto falta sim, quando vou pegar ônibus (o que faço sempre que vou pra Ufam, quando vou rs), mas aí acabo destrocando R$ 2 de novo e ganho mais moedas.

Protesto em São Paulo (Foto: Marcos de Paula/Estadão)

Protesto em São Paulo (Foto: Marcos de Paula/Estadão)

Nasci em uma família de classe média. Nunca tive tudo o que eu queria, tive que dividir a maioria das coisas com minhas duas irmãs mais velhas, mas nunca passei fome. A fome, na verdade, foi algo que só conheci no Quênia. No meu primeiro intercâmbio, na Inglaterra, engordei dez quilos. No Quênia, perdi seis. A fome não foi por necessidade, foi por choque, dificuldades que tive para aceitar as diferenças e vontade de me sentir na realidade daquele povo.

No Brasil eu sou estudante e atuo como jornalista. Sou solteira, moro com meus pais e ganho um salário razoavelmente bom para alguém que não precisa pagar contas além das bestinhas de celular, aulas de pilates que estou fazendo e compras. Voltei a um lugar onde R$ 0,20 não fazem diferença para mim, mas vejo todos os dias pessoas que seriam muito mais felizes se tivessem esses trocados que perdi na bolsa. Vejo gente aqui e vejo gente de lá, que ficou na minha cabeça e nunca vou esquecer.

Eu achei que a África ia me deixar muito mais forte a ponto de não me abalar com a realidade daqui, sempre lembrando que vi coisa mais triste lá. Cheguei até a escrever sobre isso em um dos rascunhos que preparei e não publiquei. Achei que nenhum vídeo da realidade brasileira ia me fazer chorar, mas hoje chorei. Chorei ao ver a agressão sofrida por uma jornalista que quase perdeu a vista ao ser atingida durante um protesto em São Paulo. Chorei porque ela não merecia aquilo. Ela estava ajudando uma pessoa quando foi atingida. Chorei porque me vi ali, no lugar dela. O vídeo está aqui para quem quiser chorar comigo. Chorei por lembrar de uma atividade que fiz lá no Quênia, sobre a qual quis escrever mas acabei adiando. Hoje vou compartilhar.

Durante a semana de provas dos alunos da classe oito, a mais avançada, pedi que eles fizessem uma redação sobre as eleições presidenciais no Quênia. O que eles descreveram foi a sensação de medo que viveram durante esse período. Alguns falaram das eleições como o melhor dia da vida deles, por terem conseguido eleger um novo representante sem que parte da população fosse morta em guerra. Eles temiam que fosse como em 2007, quando centenas de pessoas foram assassinadas em atos de violência com motivação política. Corrigi esses textos triste por eles, mas extremamente feliz por meu país nunca ter sido assolado por violência assim por esses motivos. Agora, com tanta sujeira sendo escancarada, me pergunto: será que eu tinha tanto motivo pra ser feliz assim?

Já sofri, no Brasil, agressões que prefiro nem citar. Já vi situações extremamente piores. Cobri polícia por um tempo e vi cada absurdo que me fez perder a fé em parte da humanidade. Convivi com políticos e vi coisas piores ainda. Cobri cidades e vi a realidade de um povo que paga caro por direitos básicos e sofre por não receber o que deveria do governo. Manaus é como o Quênia. Não, o povo não sofre tanto aqui. Não se compara, eu não seria louca de fazer isso. No entanto, temos um sofrimento gigante de ir às urnas de quatro em quatro anos com o peito cheio de vontade de mudança e depois quebrarmos a cara de novo.

Todo dia a gente sai pra ir pro trabalho com medo. Medo de ser assaltado, de sequestro relâmpago, de ser estuprado, de ser atingido por um ônibus enquanto anda de bicicleta na rua porque a prefeitura nunca fez uma ciclovia, de perder o horário porque o ônibus atrasou ou tá tendo greve do transporte coletivo. A gente sai com medo de ter R$ 2,80 no bolso, porque se chegar lá no cobrador sem ter os dez centavos pra completar o valor da passagem de ônibus ele não vai te deixar fazer o trajeto. O que a gente não teme é pagar R$ 3 e não receber o troco de dez centavos. E é isso que a gente deve combater. É por justiça que devemos pedir.

Eu não me senti 100% brasileira após voltar pro Brasil até chegar o dia 13 de junho de 2013. Eu estava no trabalho, acompanhando tudo de São Paulo. A realidade me chocava, mas ainda assim era um pouco distante. Em Manaus, no mesmo dia, ajudei na cobertura da nossa manifestação. De cem participantes, OITO foram detidos. Eles foram atingidos também por balas de borracha, gás lacrimogêneo e toda essa truculência desnecessária.

A vontade agora é de ver tudo mudar. O choro que derramei ao ver o vídeo da Folha só motiva. Ver mais gente indo pras ruas dá alegria. Nós não estamos sós. Nós somos uma nação. Preparem cartazes, peguem o vinagre. Quem liga se o trânsito vai ficar ruim por algumas horas? Ele é ruim todo dia mesmo. Se o transporte coletivo fosse bom, talvez as pessoas pudessem deixar o carro em casa e diminuir o congestionamento de todo dia. Não temam a PM. Ela não vai ser grande o suficiente pra calar uma nação. Brasil, finalmente verás de novo que um filho teu não foge à luta.

Eu sou brasileira e acredito na mudança. Vão às ruas. Espalhem a mensagem de paz e justiça. Não aceitem o vandalismo praticado pelos governantes diariamente. Aqui está o link de protestos agendados em cidades de todo o país. Seja a mudança que você quer ver no mundo.